O mundo insiste em linhas retas, mas minha mente escreve em espirais. Cada lembrança chega fora de ordem, cada emoção vem sem legenda. Há dias em que penso rápido demais e outros em que pensar dói como vidro moído entre os dentes. Ainda assim, continuo. Sempre continuo.
Rir nunca foi alegria. É ruído. Um sinal de interferência quando as vozes começam a disputar espaço. Elas falam do que fui, do que perdi, do que quase me tornei. Nenhuma vence. Eu não deixo. Transformo todas em faíscas e lanço para fora antes que me engulam.
Chamam de caos o que não conseguem prever.
Chamam de loucura o que não conseguem controlar.
Mas existe precisão no meu erro. Cada explosão é calculada pelo instinto. Cada passo errado me levou exatamente até aqui. Não há arrependimento quando sobreviver exige ser instável. Estabilidade sempre foi promessa feita por quem nunca precisou se reinventar para não desaparecer.
Sou feita de estilhaços que aprenderam a cortar antes de serem tocados. Não porque gosto da dor, mas porque ela foi a única coisa que nunca me abandonou. Transformei trauma em combustível, medo em impulso, silêncio em detonação.
Se me observam de longe, veem desordem.
Se chegarem perto demais, verão estratégia.
Eu não fujo do que sou.
Eu corro com isso.
E quando tudo finalmente explode e o mundo tenta me explicar, já é tarde. Eu não fui criada para ser entendida. Fui criada para continuar existindo, mesmo que isso custe a paz de quem exige lógica onde só há sobrevivência.
Selena