A manhã passou arrastada dentro das quatro paredes do dormitório. Fah ignorou as notificações dos seus colegas e professores, até mesmo do time de vôlei, mas não conseguiu ignorar as mensagens de Dasom, que parecia estar conseguindo ler as entrelinhas do silêncio de Fah. Isso, junto com a fome vencendo a exaustão emocional, ela aceitou a companhia da colega para comer. Perto das 13h, as duas entraram no refeitório da Yonsei. Fah mantinha o capuz do moletom baixo, tentando tornar-se invisível. Dasom, respeitando o combinado, mantinha-se em silêncio, apenas oferecendo uma presença sólida ao seu lado. Ela pegou a bandeja com o prato do dia e escolheu o suco de cereja para companhar, cujo tom escuro parecia combinar com o seu humor naquele dia.
— Ali no canto. — Ela murmurou para Dasom, queria ficar o mais longe possivel do fluxo de estudantes.
Fah deu apenas duas garfadas quando sentiu a cadeira à sua frente ser puxada com violência.
— Fugindo das aulas, N’Sorn? — A voz de Pun cortou o pouco de paz que Fah tinha alcançado. — Achei que doutorandas fossem mais... comprometidas.
Fah nem precisou levantar a cabeça. O estômago dela deu um nó instantâneo, transformando a comida em cinzas na boca. Pun estava ali, relaxado, com uma maçã na mão e aquele olhar de quem estava se divertindo com o desconforto alheio, ignorando completamente a presença de Dasom, mas foi ela quem falou em seguida:
— Quem é esse cara, Fah? — Dasom perguntou, a voz já carregada de hostilidade defensiva.
— Um velho amigo... não é, Sorn? — Pun respondeu sem olhar para Dasom, inclinando-se para o espaço pessoal de Fah. — Só quero conversar. Estava lembrando de como você era mais dócil na graduação. Você preparava o meu almoço, lembra? Onde foi parar aquela garota que fazia tudo para me agradar?
— Aquela garota morreu há cinco anos atrás, quando você fez o favor de me abandonar aqui depois de sugar tudo de mim. — ela retrucou, largando os talheres. A amiga fez menção de intervir, mas Fah colocou a mão sobre o braço dela, um pedido silencioso para que ela não se envolvesse. Era uma conta que a ela mesma precisava encarar. — Sai da nossa mesa, agora.
— Você está sendo ingrata. Eu te ensinei tudo o que você sabe sobre disciplina. Se você é capitã hoje, é porque eu te pressionei a ser a melhor quando você queria desistir. — Ele se inclinou sobre a mesa, diminuindo a voz, provocando, querendo testar os limites de Naphatsorn. — Você me deve o seu sucesso, Sorn. Sem mim, você seria apenas mais uma estudante estrangeira perdida aqui.
Fah sentiu o sangue subir para o rosto. Ele estava mesmo tendo a audácia de levar os créditos pela vida que ela tinha construido? Com suor, lágrimas, noites mal dormidas... Filho da puta.
— Eu não te devo nada. — disse, a voz subindo de tom, atraindo a atenção das mesas vizinhas. — Você foi um atraso na minha vida, o pior erro que eu cometi.
— Baixa o tom, não passa vergonha na frente da sua amiga... — ele debochou, olhando diretamente para Dasom, que parecia que ia voar nele a qualquer instante. — Ela não sabe que você é uma histérica que não consegue superar o ex.
Pun soltou uma risadinha arrogante, limpando o canto da boca com o polegar. Foi o estalo final. Fah empurrou a cadeira de Dasom para longe da mesa com o pé e em um movimento rápido e preciso de atleta, ela agarrou as bordas da bandeja. Com um impulso firme, lançou todo o conteúdo diretamente no peito e no rosto de Pun. Para finalizar, virou o copo do suco de cereja em cima da cabeça dele. O refeitório ficou em silêncio, pelo menos a parte que estava interessada naquela cena. Pun estava paralisado. O amarelo do curry escorria pelas bochechas, misturando-se ao suco de cereja que encharcava sua gola e pingava dos cabelos. Ele parecia patético, despojado de toda a sua arrogância em segundos.
— Da próxima vez que você abrir a boca para dizer que eu te devo algo, eu não vou jogar comida, Pun — Fah disse, se inclinando na direção dele, apontando o dedo diretamente no rosto do ex. — Eu vou garantir que a reitoria saiba exatamente o tipo de "intercambista" que eles aceitaram. Então é melhor que você me deixe em paz. E nem ouse chegar perto da minha amiga ou de qualquer pessoa perto de mim. — Ela achou graça quando Dasom virou o suco na cabeça dele também, mas estava nervosa demais pra rir. — Vamos embora, Dada. Perdi o apetite.
Fah podia sentir os olhares sobre si, mas não ligava, não se importava com mais nada. Apesar de ter uma satisfação amarga em seu peito pelo que havia feito, ela sabia que não tinha acabado, mas não conseguia parar de rir. E também não conseguia parar de chorar. Ela estava uma bagunça. Mas poderia dizer que estava 30% orgulhosa de si por ter conseguido revidar Pun pela primeira vez.