Fah estava feliz naquela noite. As medalhas conquistadas pela YU conseguiram arrancar um sorriso seu, independente da classificação. Medalha é medalha. Por algumas horas ela esqueceu da existência do mundo exterior e do problema que andava pelo campus atrás dela por semanas. Ela fugiu como pôde. Até mesmo naqueles dias em que esteve doente, fez de tudo para não ficar no dormitório onde poderia ser achada, passou a voltar tarde, quase no limite do horário do toque de recolher. Tudo pra não ter que encarar um dos seus maiores demônios.
Mas foi impossível fugir na noite da premiação.
Ele fez questão de caçá-la. Fez questão de sentar atrás dela na arquibancada; Fah podia sentir o olhar dele em suas costas, lhe causando arrepios, náuseas. Mas ela disfarçou bem, não deixou que ninguém notasse seu desconforto. Sustentou o sorriso no rosto até o final, parabenizando todos os seus colegas medalhistas. Na primeira oportunidade ela deixou o salão de eventos. Se encostou na parede próxima para tirar o salto alto, não era acostumada, seus pés já estavam doendo. Fez uma pequena massagem em cada um antes de seguir em direção a seu dormitório.
— Sorn. — A voz masculina que surgiu atrás dela a deixou nervosa, mas não parou de caminhar. — Sorn... Naphatsorn! — Ela o sentiu agarrar seu braço e só então virou, batendo com o salto que segurava na mão dele.
— Não encosta em mim. — Disse, dando um passo pra trás. — Não me chame de Sorn nunca mais.
Ele soltou o braço dela lentamente, mas não recuou. Pelo contrário, estampou aquele sorriso de canto que Fah conhecia tão bem; o sorriso de quem sabe exatamente qual botão apertar para fazer alguém explodir.
— Quanta agressividade para uma doutoranda, Naphatsorn. Cadê a educação que a YU te deu? — Ele deu um passo à frente, forçando-a a recuar contra a parede fria do corredor. — Achei que o doutorado e a capitania tivessem te deixado mais... civilizada.
— Vá a merda, Pun.
Ela conseguiu empurrá-lo e se afastou da parede, virando de costas e continuando a andar em direção ao dormitório. Ele a seguida. Os passos dele seguiam o mesmo ritmo dos seus. Ele disse em alto e bom som:
— O intercâmbio me trouxe de volta para muitas coisas, mas ver você fugindo de mim pelos corredores da Yonsei nas últimas semanas foi a melhor delas. Você ainda não me esqueceu, não é? Ainda tem sentimentos por mim, N'Sorn?
Fah parou abruptamente. O uso do honorífico antes do apelido que ela agora detestava foi como um golpe no estômago. Ela não se virou, mas seus ombros estavam rígidos, as unhas cravadas na palma das mãos.
— O único sentimento que eu tenho por você, Pun, é nojo... — Disse, a voz gélida, tentando esconder o tremor que subia por suas pernas. — E eu não estou fugindo. Estou apenas limpando o meu caminho. Agora, pare de me seguir ou eu farei questão de que sua segunda graduação termine antes mesmo de começar.
Pun soltou uma risada seca, aquele som que costumava fazer Fah se sentir pequena e errada anos atrás.
— Ameaças? Você realmente acha que alguém vai acreditar que a "grande capitã" se sente intimidada por um ex-namorado que só quer conversar? — Ele parou de segui-la, mas a projeção de sua voz ainda a alcançava com força. — Durma bem, N'Sorn. A gente se vê por aí.
Fah não respondeu. Ela apertou o passo, quase correndo pelo asfalto do campus, os pés descalços sentindo cada irregularidade do chão, mas ela não se importava. O brilho daquela noite tinha sido apagado por completo. Ela só percebeu que havia corrido boa parte do caminho quando chegou ofegante ao dormitório. Ao entrar no quarto, Fah trancou a porta, jogou os saltos num canto e desmoronou perto da cama.
O aperto no peito, que ela tentou controlar a noite inteira, finalmente transbordou. Ela puxou o travesseiro contra o rosto para abafar o som e chorou. Não era um choro de tristeza, era de pânico. Ali, no escuro daquele quarto, a mulher que fazia de tudo para parecer inabalável deu lugar a uma versão de si mesma que ela jurou que nunca mais deixaria voltar.
Ela estava apavorada. E ele sabia disso.