Ela corre porque parar exige pensar, e pensar é quando tudo começa a falar ao mesmo tempo.
Os becos piscam como sinapses cansadas. Luzes quebradas, sombras tortas, o cheiro metálico de algo que já foi erro e agora é lembrança. Cada passo é uma decisão atrasada, cada riso uma tentativa de abafar o coro que insiste em chamá-la por nomes antigos nomes que não funcionam mais.
Dentro da cabeça, nada anda em linha reta. As ideias tropeçam, caem umas sobre as outras, levantam rindo. Há esquemas rabiscados no ar, planos que só fazem sentido se você aceitar que o caos também pensa. Ela aceita. Sempre aceitou.
Explosões não são perda de controle. São pontuação.
Entre uma detonação e outra, surgem memórias que não pediram permissão: mãos menores segurando promessas maiores, vozes que diziam “fica”, “confia, “não faz isso”. Ela fez. Faz. Vai fazer de novo. Porque obedecer foi o primeiro erro, e errar virou ciência.
A gargalhada escapa quando dói demais. Não é humor é válvula de escape. Se ela não rir, algo explode por dentro, e isso é mais difícil de limpar das paredes.
Há método, sim. Um padrão secreto costurado com raiva, saudade e independência radical. Nada ali é aleatório, só indecifrável para quem ainda acredita em ordem limpa, em histórias com começo, meio e fim. A dela é feita de estilhaços. E estilhaços cortam.
Quando o silêncio ameaça, ela cria barulho. Quando o mundo tenta domar, ela pinta tudo com fogo e cor. Não para destruir mas para provar, mais uma vez, que ainda está no controle do próprio desastre.
E se tudo explodir no final?