Apesar de ser uma segunda-feira, a exaustão tomava conta do corpo de Chen; o dia cansativo de trabalho fazendo seus músculos pesarem e a cabeça doer com uma forte enxaqueca. No segundo que terminou o seu último atendimento do dia, dirigir-se para o seu carro após se despedir de todos os colegas de trabalho.
Passou no café mais próximo para pegar um café gelado na intenção de aguentar mais algumas horas acordada. O caminho até seu apartamento não era longo, mas o movimento dos carros na estrada era maior do que o comum.
Em meio aos sons de buzinas e motores de carros, seu celular tocou no banco ao lado, “Número Desconhecido” brilhando no ecrã do dispositivo. Mesmo confuso com o horário, algo lhe dizia para aceitar a ligação, e foi o que fez; uma mão no volante e outra levando o celular à orelha.
— Alô?
O silêncio era ensurdecedor do outro lado da linha, e por alguns segundos até considerou a possibilidade de que seja alguma tentativa de golpe, mas antes que a ligação fosse encerrada, a voz do outro lado da linha quase fez seu corpo congelar.
— Filho…?
De forma repentina, respirar se fazia quase impossível. Não sabia o que era a sensação que fez seu corpo queimar por dentro, uma combinação de raiva e tristeza apertavam em seu peito.
Aquela era uma voz que não escutava à anos, e apesar de mais rouca e envelhecida com a idade, reconheceria a forma com que seu pai soava à qualquer distância.
— O que você quer? — Sua fala saia de forma totalmente diferente de como todos a conheciam; doce, gentil e calmo. Mas sim frio, um desdém e rancor no final de cada palavra. O mandarim um tanto enrolado em sua língua, tanto pela falta de costume ao usar a sua língua nativa, como pelo nervosismo.
— Oh, meu filho… Deus seja louvado! Eu, sua mãe… nós sentimos sua falta. — Para quem não o conhecesse, o homem poderia até mesmo parecer genuíno, mas Chenyi conhecia-o melhor que ninguém.
— Quem passou o meu número para você?
Naquele ponto, as lágrimas já se formavam no canto de seus olhos, a mão trêmula segurando com mais força o volante.
— Isso não importa agora, meu filho… Eu e sua mãe sentimos sua falta, toda a nossa família sente! Por favor, Chenyi, volte para casa. Eu prometo, vamos esquecer tudo o que aconteceu e deixar no passado.
Uma risada irônica escapou pelos seus lábios. Isso só pode ser uma piada de mau gosto, pensou, revirando os olhos antes de responder.
— Esquecer, pai? Você quer que eu esqueça o inferno que fizeram da minha vida à anos atrás?
Uma buzina fez com que Chenyi acordasse do estupor em que se encontrava, percebendo que dirigia devagar demais para uma rodovia tão agitada.
— Eu sonhei com você essa noite, meu filho… E eu acredito que seja uma mensagem de Deus para trazê-lo de volta à nossa vida, e à ele. Eu sei que lembra o quanto amava esse lugar, seus amigos… Eu tenho fé que o Pai todo poderoso tem planos para sua vida, para que siga o caminho d’Ele e acorde dessa ilusão que vive.
Realizou uma freada brusca, por alguns segundos, quase ultrapassando o sinal vermelho e chocando seu carro com outro. A raiva fez com que seu corpo tremesse e seus olhos cegaram-se ao ouvir aquelas palavras.
Tantos anos em que cortou contato com a sua família, e os mesmos pareciam recusar-se a mudar suas ideias preconceituosas, a aceitar que Chenyi nunca seria um homem virtuoso que esperavam da mesma. E mesmo após anos ignorando a existência da família que o rejeitou, a culpa ainda fazia seu peito pesar, assim como no dia em que foi embora para nunca mais voltar.
— Nunca mais ligue para esse número de novo, entendeu, pai?
Desligou a ligação sem nenhuma despedida, jogando o celular de qualquer forma no banco do carona e acelerando o carro.
As lágrimas que caiam desesperadamente de seus olhos tornavam quase impossível enxergar o caminho, mesmo que limpasse de forma desleixada o rosto a cada gota que escorria.
Passou tanto tempo da sua vida adulta aprendendo a lidar com a sensação de vazio e culpa que pesava seus ombros, tentando ignorar as lembranças de todas as palavras que escutou dentro de uma igreja, dentro do seu próprio lar; de como aquela forma de viver era vazia, desviada do plano do Senhor, e como todos que eram diferentes eram pecadores.
E enquanto estacionava na garagem do seu prédio, viu-se encarando o reflexo no espelho do carro, os cabelos consideravelmente longos e a maquiagem agora borrada em seus olhos, percebeu que ainda era a mesma Chenyi de dezoito anos e que na verdade, nada havia mudado dentro de si, havia sido apenas varrido para baixo do tapete.