tw: cansaço, abalo psicológico.
lily guardou o celular no bolso após a última mensagem. já estou quase em casa, tinha dito, a ainda assim, não tinha saído do lugar — a calçada fria onde estava sentada, o cigarro já a muito apagado ainda pendurado entre os dedos. encarava o nada em silencia, perfeitamente escondida entre um carro e outro, como se nada no mundo pudesse achá-la, e por um segundo, lily desejou muito que fosse verdade.
o que diabos ela estava fazendo, no fim das contas?
sentia uma mistura nada homogênea de um milhão de sentimentos diferentes. cansaço, revolta, orgulho. mas, acima de tudo? sentia patética. hipócrita. quem era ela para dar lição de moral ou aconselhar qualquer pessoa quando não conseguia nem seguir os próprios conselhos ela mesma? quem ela pensava que era para encher a boca — ou os dedos, naquele caso — e proferir todas aquelas coisas quando não conseguia aplicá-las para si mesma?
uma pequena risada escapou dos lábios da moça, seca, sem nenhuma graça. ela era realmente patética.
mais vários minutos se passaram enquanto lily tentava encontrar a coragem para se mover. talvez devesse dormir ali mesmo, numa sarjeta como o nada que se sentia. talvez devia só andar sem rumo até parar em lugar nenhum. talvez devesse... não. não queria pintar. não queria nem sequer pensar em todos os cadernos e folhas e telas que havia começado a detestar recentemente.
só queria... sumir no mundo por uma noite.
as pernas estavam meio dormentes quando finalmente decidiu se levantar. bom. podia não desaparecer por uma noite, mas podia perfeitamente ir andando até a própria casa — a pequena caixinha de fósforo que chamava de lar e estúdio desde que havia chegado na coreia. o bairro era o mesmo, e o caminho da nox até lá não era desconhecido ou longo. um passo, depois outro e mais um. logo, a cabeleira cor-de-rosa encontrava-se no caminho de casa.
demorou um pouquinho para perceber as pequenas lágrimas que derramava. era como se tivessem simplesmente escapado por pura vontade, sem permissão nenhuma. estranhou, a princípio. por que diabos estava chorando? por que diabos estava sentindo o coração tão, tão, tão pesado? era ridículo. era patético. era... cansativo.
lily continuou caminhando, os soluços silenciosos pulando dos lábios vez ou outra enquanto permitia-se chorar. só dessa vez, pensou enquanto dava suas passadas, vou deixar as lágrimas pelo caminho, e depois não vou mais chorar. e foi o que fez. a cada novo passo, uma nova porção de lágrimas era deixada para trás, e a cada novo passo, lily também deixava um pedacinho de si para trás.
quando finalmente o prédio velho surgiu em frente a si, a moça já não sentia nada além de um grande vazio. encarou a porta de entrada, a cabeça doendo e os dedos tremendo quando colocava a senha. subiu as escadas, e quando encontrou a própria porta, já não mais chorava. não, estava seca.
não acendeu a luz. tampouco se importou em tirar nada além dos sapatos. conhecia aquele lugar muito bem para saber exatamente onde queria chegar. e ali, naquela madrugada, lily deitou-se no mesmo cantinho de sempre da própria sala, no chão. naquela madrugada, lily ignorou o toque do telefone com a música tão conhecida e as letrinhas familiares que soletravam "appa" na tela do celular. naquela madrugada, lily permitiu-se murchar.
era realmente, realmente um desperdício.