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TBT: Xote Encantador

Luzia nunca tinha saído de Santa Rosa do Brejo. Criada entre galinhas, cheiro de terra molhada e café no bule, ela achava que a cidade grande era coisa de novela. Mas quando sua tia, que morava em Campina Alta, a convidou para passar o mês de junho lá, ela aceitou com o coração batendo rápido — medo e curiosidade juntos.

No dia da festa, Luzia colocou seu melhor vestido de algodão, costurado pela mãe. Era simples, mas bordado com cuidado, florzinhas pequenas no tecido claro. Na cidade, tudo parecia grande demais: a praça cheia, as vozes, as luzes. A quadrilha era anunciada por alto-falantes e os balões subiam cortando o céu escuro, feito estrelas brincalhonas.

Andava devagar entre as barracas quando ouviu uma voz:

— Cuidado, moça! Quase pisa no cordão da barraca.

Ela se virou rápido, assustada — e lá estava ele. Um rapaz com olhos calmos, sorriso discreto e jeito de quem conhecia o lugar de cor. Era Emanoel José, filho de Zé Bento, amigo antigo do pai dela.

— Obrigada... — ela respondeu, envergonhada.

— Você é a filha do Joaquim da Serra, né? Lembro de você pequena, num batizado.

Ela riu, corada. Já tinha quase esquecido que o pai dela era amigo de meio mundo.

Ele a convidou para dar uma volta. Caminharam devagar, tomando quentão (ela mais pelo calor do copo do que pelo gosto), ouvindo o forró e observando o povo dançar. Luzia contou que nunca tinha ido a uma festa tão cheia. Emanoel falou da cidade, da faculdade, mas também do quanto gostava de ir ao interior visitar os pais. Descobriram que os dois preferiam o silêncio da roça, mas se encantavam com a beleza barulhenta das festas.

Quando começou a última quadrilha, Luzia quis assistir de longe, achando que não sabia dançar. Mas Emanoel puxou a mão dela com gentileza:

— A gente aprende dançando. Só precisa seguir o ritmo... e confiar.

Ela hesitou por um segundo. Então sorriu e foi.

Dançaram desajeitados no começo, depois leves. A fogueira clareava os rostos e os olhos falavam mais do que qualquer palavra.

Na despedida, Emanoel entregou um chaveirinho de madeira que comprou na barraca do artesanato. Era um pequeno balão, talhado à mão.

— Pra você lembrar dessa noite. E, quem sabe, voltar um dia.

Luzia guardou o presente no bolso do vestido. E levou no coração uma história que ela mesma não sabia explicar direito, só sentir.

Alveszk