Vínculos Solares
Já se passaram meio e vinte e três dias desde que a luz solar tocou minha pele. Acompanha o tempo através dos lamentos — tanto meus quanto alheios. Aqui, o tempo é definido por silêncios abafados e o toque gélido do aço. O chão conhece minha história melhor do que qualquer pessoa em liberdade lá fora.
Eu não era um guerreiro de berço. Tornei-me um.
A liberdade me foi tirada sob o pretexto de ordem, paz e avanço. Três palavras que agora saboreio com amargura, buscando em vão nutrição. Fui rotulado como perigo, desertor e extremista. Nunca me permitiram explicar que lutei por aqueles alheios ao seu controle. Pelos que nasceram em prisões digitais e acreditaram ser o paraíso.
As paredes da minha cela abrigam meus pensamentos mais torpes e sublimes. Já clamei por minha mãe. Já desejoi a morte. Mas também prometi que, se algum dia eu sentir o vento livre, lutarei para que ninguém mais seja aprisionado sem resistência.
A dor já não me assusta. Tornou-se habitual. O que me aterroriza é o esquecimento — de mim, dos meus princípios, dos nomes que partiram sem honras. Eles querem extinguir a chama. Mas cada marca em meu corpo é um lembrete vívido, pulsante, inegável da minha existência. E enquanto existir, posso me levantar.
Eles se equivocaram em algo.
Indivíduos livres não são natos. Eles são feitos. E mesmo na cela mais sombria, a liberdade persiste — na raiva focada, na memória das perdas, na opinião de que ainda há algo a ganhar.
Não serei apenas uma sombra. Serei o som que ecoa mesmo após o último suspiro.