Não lembro do dia exato em que minhas pernas esqueceram como é correr sem medo. Talvez tenha sido quando ergueram muros mais altos do que minhas esperanças ou quando pintaram grades de um cinza tão uniforme que engolia o azul do céu. Só sei que acordei um dia, e o mundo cabia num quarto úmido, numa tigela de sopa rala, num vigia que nunca me chamava pelo nome — apenas pelo número gravado na gola da minha camisa.
No início, eu ainda sonhava. Fechava os olhos e sentia o vento, como se minhas costelas fossem portões frágeis que ele poderia arrebentar. Na escuridão, eu era dono de campos vastos, de estradas sem fim. O vento me beijava os ombros e ria das correntes que me prendiam. Mas os sonhos também aprenderam a se calar. Aprendi a dormir de olhos abertos, encarando o teto, esperando algum estalo na fechadura que nunca vinha.
Um dia, escutei um pássaro. Um canto breve, entre as frestas da janela alta demais para eu alcançar. Ri sozinho — porque ali estava ele, o mensageiro do mundo de fora, cuspindo na cara dos meus carcereiros com cada batida de asa. Era livre, e eu era menos que pó. Naquele instante, odiei aquele pássaro. Como ousava voar enquanto eu apodrecia aqui dentro?
Depois, percebi o erro: não era ódio. Era fome. Uma fome maior que a sopa rala, maior que o espaço apertado entre as quatro paredes. Eu tinha fome de céu. Fome de vento real, não esse que se esgueira pelas frestas como um ladrão. Fome de ver minha sombra crescer sob o sol, em vez de definhar na luz fraca de uma lâmpada amarela.
Dizem que o medo é o maior carcereiro. É mentira. O maior carcereiro é a resignação. É quando você acredita que o mundo lá fora se esqueceu de você, que seus gritos não rasgam nem o ar parado da cela. Mas eu me recuso. Meu peito, mesmo gasto, ainda se ergue. Minhas mãos, mesmo feridas, ainda sonham em arrebentar fechaduras. Eu sou mais que meu número. Sou mais que essas paredes. Sou o vento que, um dia, escapará por entre as frestas — mas não sussurrará mais. Gritará.
E quando eu sair, não terei asas, mas terei dentes. E cada passo será vingança. Não para o passado — mas para todo sopro de liberdade que um dia me negaram. Porque quem experimenta a prisão, carrega o gosto da fuga na língua até morrer. E eu ainda tenho muito fôlego para correr.
Autor: 6669
Habblive