Olá, chamo-me Miguel, tenho 15 anos e moro na Zona Oeste, São Paulo. A minha vida estava tudo às mil maravilhas até o dia 18/03/2020 às 09h00 da manhã, quando recebi uma ligação do meu padrasto, dizendo que minha mãe estava passando mal e que foi encaminhada ao hospital em estado grave. Perguntei o que tinha acontecido, porém, ele me dizia que não podia falar agora e me passou o nome do hospital. Fiquei agoniado e sufocado, querendo saber o que tinha acontecido com ela, imediatamente chamei um táxi e fui até o hospital. Chegando lá, encontrei com meu padrasto, que me disse o que teria ocorrido com minha mãe... Fiquei sem reação e desmaiei! Ao acordar, deparei-me num quarto amplo, arejado, com tonalidades claras nas suas paredes e chão, logo percebi que estava num quarto do hospital, deixei-me estar uns instantes para forçar o que havia acontecido para eu estar aqui, quando dou um salto e lembro-me da minha mãe.
  Corri o mais rápido que conseguia pelos corredores daquele hospital, como se não houvesse amanhã, pelo menos para a minha mãe. Entrei numa sala de espera onde por mera coincidência encontrei o meu padrasto, lá estava ele sentado num banco, tinha um ar de cansaço e de tristeza, fui até ele entreguei-lhe um copo de café e disse-lhe em tom de motivação que tudo ia correr bem, ele não disse nada, absolutamente nada. Permanece-mos ali os dois sem pronunciar uma única sílaba, estava até a sentir-me desconfortável, portanto decidi ir até ao atendimento geral e perguntar pelo quarto da minha mãe, não podia ficar ali sentado e pensar no pior, tinha de agir, e assim fiz, fui até ao quarto 43, e pelo vidro de fora consegui ver a mulher mais incrível da minha vida, estava a dormir, tão quieta, o seu rosto transmitia um ar de tranquilidade. Entrei no quarto e sentei-me, dei-lhe os bons dias, e falei-lhe como o clima estava bonito lá fora, falei-lhe que o padrasto também estava lá fora a pensar nela, e que o hospital não estava muito movimentado hoje, parei por uns instantes, e sem pensar peguei-lhe na mão e disse que precisa dela. Passado um tempo voltei para perto do meu padrasto para lhe dar a vez, e sentei-me, comecei a pensar no que havia acontecido com ela, para ter ficado nesse estado, se ao menos eu não fosse tão infantil às vezes, não me teria chateado com ela, dizendo-lhe que queria aquele jogo novo, pois todos os meus amigos têm, ela talvez não teria ido compra-lo e ela não teria sido assaltada e não estaria nesta cama de hospital em coma, sentia-me culpado, foi então que pedi a alguém que deixasse recado ao meu padrasto de que eu havia voltado para casa, e assim foi, quando cheguei até ao meu quarto comecei a chorar, sentia um peso horrível dentro de mim e só queria que ele saísse rápido. 
Passou-se uma semana, o meu padrasto parecia que estava a morrer a cada dia que passava, e eu todos os dias à mesma hora, ia até ao quarto 43, falar-lhe sobre os acontecimentos diários, a meteorologia, o que eu tenho andado a fazer, e todos os dias me despedi-a dela com um "preciso de ti". Os dias estavam-se a tornar tão iguais, e a minha esperança a cada dia diminuía, e não sei dizer porquê, comecei a cotar-me, sentia um prazer enorme ao pegar numa lamina e desliza-la pelo meu braço, eu sei que é doentio, mas talvez tenha sido uma forma para tirar a culpa que me preenchia do acorrido. Deixei de ir ao hospital durante meses, e comecei a fazer todas aquelas coisas que a minha mãe me pedia todos os dias com regularidade para nunca o fazer, uma delas eram as drogas, sentia-me poderoso e uma felicidade bizarra, depois comecei a faltar às aulas e a dedicar-me apenas a mim e aos meus vícios, nisto se passaram 5 anos, numa manhã olhei-me no espelho, e via uma pessoa que já não conhecia, queria uma opinião diferente e foi então que fui até ao quarto do meu padrasto, estranhei ele ainda estar a dormir, então comecei a chamar pelo seu nome, mas nada acontecia, abanei-o e ele não dava sinais de vida, liguei de imediato para as urgências, logo de imediato, no hospital recebi a noticia que me fez rasgar as peles deste monstro que me substituiu, o meu padrasto havia morrido durante a madrugada com um enfarto no miocárdio, talvez tenha sido do desgosto de ver o seu filho crescer e tornar-se no que me tornei hoje. Comecei a correr naqueles corredores como se não houvesse amanhã, e fui até ao velho quarto 43, ali estava ela, a mulher da minha Julieta, ainda adormecida durante estes anos, aliviado por ela não ter visto no que eu me tornei, envergonhado por de certa forma ter matado o seu Romeu. Agarrei-me com tanta força à sua mão e em tom de choro contei-lhe tudo, tudo o que ela perdeu nesses 5 anos, e finalizei com um "eu preciso de ti", e ali ficamos os dois em silêncio, apenas com o ruído do aparelho que segurou a minha mãe este tempo todo, que do momento para o outro até o aparelho começou a disparar um som intenso e continuo, mostrando apenas linhas retas, comecei a ficar assustado, uma equipa médica invadiu o quarto e pediram-me que eu aguardasse do lado de fora, eu sem entender fiz o que me pediram, depois daquela confusão toda, instalou-se uma paz, conseguia ver uma cara de desânimo e de tristeza naqueles profissionais todos, quando com muita delicadeza me deram a pior noticia, a minha mãe desistiu de lutar.
  Por fim vários e vários anos se passaram, consegui equilibrar a minha vida, encontrei uma mulher maravilhosa, e com ela tivemos 2 filhos incríveis, Romeu e Julieta, isto em homenagem ao meu padrasto e à minha mãe, que viveram uma linda história de amor. Todos os dias à mesma hora eu levava a minha nova família ao cemitério, até aquela mesma campa onde as duas pessoas que fizeram quem sou hoje, permanecem unidas.

siy